(Texto lido por mim, no lançamento do projecto «Café Literário», do ECB, no passado dia 25. Espero que gostem.)
Quando eu era miúda, talvez com 10, 11 anos, li um livro da Alice Vieira que me marcou imenso. Chamava-se «Se perguntarem por mim, digam que voei» e, na verdade, já não me lembro de nada do enredo nem sequer das personagens. Sei apenas que uma delas era uma rapariga triste de cabelos muito compridos, que por uma razão qualquer, tinha de estar sempre no seu quarto, não podendo sair de lá. (Julgo que era um problema de saúde, ou algo do género.) Mas lembro-me muito bem de que, a certa altura, essa rapariga dizia qualquer coisa como «Desde que se tenha uma janela, pode-se sempre voar através dela». Queria ela dizer que, mesmo confinada a um espaço diminuto, o facto de poder olhar por uma janela, ver o céu, o sol, as nuvens e quem sabe uma ou duas pessoas, era como que uma libertação, uma forma de fugir à realidade voando à boleia da imaginação.
Creio que é este tipo de experiência que um bom livro nos pode proporcionar. Se há algo na nossa vida que por algum motivo gostaríamos de mudar, podemos sempre imaginar-nos noutras circunstâncias, como aquelas, por exemplo, em que decorre o livro que estamos a ler. Podemos, e para parafrasear a tal rapariga triste, voar através dos livros, isto é, conhecer outras coisas, outras ideias, outras pessoas, através das nossas leituras. Uma boa história, se bem contada, tem esta capacidade de nos envolver enquanto vai contribuindo para o enriquecimento da nossa linguagem falada e escrita.
Ler oferece-nos, portanto, esta possibilidade de fantasiar, no caso dos livros de ficção. Mas se, por outro lado, pensarmos nos livros que abordam temas tão diversos como a ciência e a natureza ou a história, a filosofia e a economia, poderemos falar num enriquecimento pessoal do ponto de vista do conhecimento. Aprendemos mais coisas, sobre assuntos que nos interessam, e que interessam sobretudo quando olhamos para os problemas que a humanidade enfrenta hoje em dia. Só sabendo mais sobre eles os poderemos solucionar. Só possuindo competências como o sentido crítico ou a capacidade de organização poderemos pensar sequer em resolvê-los. E os livros podem dotar-nos destas capacidades.
Contudo, o desenvolvimento da informática e da tecnologia, com os seus inegáveis benefícios, tem vindo a contribuir para um fenómeno absolutamente aterrador e que tem a ver com o facto de o homem comum desprezar cada vez mais a cultura escrita. As pessoas lêem cada vez menos, o que, como é óbvio, tem consequências directas a nível da perda de certas capacidades que outrora eram fornecidas pelos livros e pela sua leitura. Fala-se cada vez pior, pensa-se cada vez menos.
Urge, por isso, estimular nos jovens o gosto pela leitura. Fazê-los perceber que ler pode não ser «uma seca». Mostrar-lhes que há algo para além das consolas e do computador. Abrir-lhes as portas a um mundo novo, a um admirável mundo novo, que, desta vez, não sendo totalmente novo, é verdadeiramente admirável.