29 de Maio de 2009

Fi-ló-so-fo


Ao sábado de manhã, uma das tarefas do meu part-time consiste em ajudar a B., uma menina de nove anos, com os trabalhos de casa. Importa dizer que, embora tenha algumas dificuldades, a B. consegue sempre surpreender-me (pela positiva, é claro).
Na semana passada, enquanto resolvíamos uma sopa de letras acerca das actividades de um qualquer escritor infantil, uma palavra estranha surgiu. Uma palavra estranha, que nos pôs a pensar às duas. Talvez mais a mim do que a ela.

-Então, B., não consegues descobrir mais nenhuma palavra?
-Não.
-Olha que ainda falta uma…
-Onde?
(Aponto a palavra que falta.)
-Aqui, junto ao meu dedo.
(Ela franze o nariz, como se suspeitasse de estar a ser enganada.)
-Fi… Filós?
-Não, B.. Lê as letras a seguir.
-Filôsufo?
-Fi-ló-so-fo.
-Qué isso?
Fiquei embatucada. Julgo que até corei.
-É… Pois, é… hum… Sabes, B., eu também não sei. Quer dizer, não sei dizer-te assim, rapidamente, em poucas palavras. Se começássemos a falar disso, estávamos aqui até amanhã…
A B. observa-me atentamente, recosta-se na cadeira e diz, como se já antes soubesse qual a minha resposta:
-Coisa estranha.

Na altura este pareceu-me apenas um momento engraçado, mas mais tarde dei por mim a pensar o quão certa aquela menina estava. Não é tão estranha, a cada momento, a condição humana? Não nos sentimos por vezes como «peixe fora de água»? Não nos faltam as respostas para as perguntas que temos de sobra?

Não é tão estranho sermos e sabermo-nos humanos?

20 de Maio de 2009

O Poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne.
Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
rios, a grande paz exterior das coisas,
folhas dormindo o silêncio
- a hora teatral da posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as casas deitadas nas noites
e as luzes e as trevas em volta da mesa
e a força sustida das coisas
e a redonda e livre harmonia do mundo.
- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

- E o poema faz-se contra a carne e o tempo.

Herberto Hélder, Poesia Toda

17 de Dezembro de 2008

A Frase da Semana

«Nós [seres humanos] nascemos eventualmente para a alegria.»

Professora Soledade Santos, numa aula de Português

15 de Dezembro de 2008

(Sem Título)

E depois é assim, meu amor,
que tudo acontece.
Os dias vão passando devagar,
fundindo-se uns nos outros,
e nós, que não podemos fazer nada contra,
aguentamos calados o peso das memórias que subsistem
persistem
insistem
aguentamos calados, e sorrimos quando é preciso.
Aguentamos as mãos frias e o medo
de que não tornem a aquecer,
porque sabemos que pouco há já que as aqueça
porque não sabemos o que há ainda que as aqueça.
Fingimo-nos esquecidos, fingimo-nos doentes,
como se uma abelha tivesse deixado em nós o suave ferrão da indiferença
sim, um pequeno ferrãozinho, uma pequena farpazinha,
que, cravada na nossa carne,
fosse a pouco e pouco envenenando o nosso sangue
a pouco e pouco empalidecendo os nossos rostos
dando-nos aquele ar que faz com que os outros tenham pena de nós
embora não saibam porquê.

À noite engulo um Xanax com água da torneira
e durmo até ao amanhecer.

Marta Santos

3 de Dezembro de 2008

People Keep Comin' Around

27 de Novembro de 2008

Café Literário

(Texto lido por mim, no lançamento do projecto «Café Literário», do ECB, no passado dia 25. Espero que gostem.)


Quando eu era miúda, talvez com 10, 11 anos, li um livro da Alice Vieira que me marcou imenso. Chamava-se «Se perguntarem por mim, digam que voei» e, na verdade, já não me lembro de nada do enredo nem sequer das personagens. Sei apenas que uma delas era uma rapariga triste de cabelos muito compridos, que por uma razão qualquer, tinha de estar sempre no seu quarto, não podendo sair de lá. (Julgo que era um problema de saúde, ou algo do género.) Mas lembro-me muito bem de que, a certa altura, essa rapariga dizia qualquer coisa como «Desde que se tenha uma janela, pode-se sempre voar através dela». Queria ela dizer que, mesmo confinada a um espaço diminuto, o facto de poder olhar por uma janela, ver o céu, o sol, as nuvens e quem sabe uma ou duas pessoas, era como que uma libertação, uma forma de fugir à realidade voando à boleia da imaginação.
Creio que é este tipo de experiência que um bom livro nos pode proporcionar. Se há algo na nossa vida que por algum motivo gostaríamos de mudar, podemos sempre imaginar-nos noutras circunstâncias, como aquelas, por exemplo, em que decorre o livro que estamos a ler. Podemos, e para parafrasear a tal rapariga triste, voar através dos livros, isto é, conhecer outras coisas, outras ideias, outras pessoas, através das nossas leituras. Uma boa história, se bem contada, tem esta capacidade de nos envolver enquanto vai contribuindo para o enriquecimento da nossa linguagem falada e escrita.
Ler oferece-nos, portanto, esta possibilidade de fantasiar, no caso dos livros de ficção. Mas se, por outro lado, pensarmos nos livros que abordam temas tão diversos como a ciência e a natureza ou a história, a filosofia e a economia, poderemos falar num enriquecimento pessoal do ponto de vista do conhecimento. Aprendemos mais coisas, sobre assuntos que nos interessam, e que interessam sobretudo quando olhamos para os problemas que a humanidade enfrenta hoje em dia. Só sabendo mais sobre eles os poderemos solucionar. Só possuindo competências como o sentido crítico ou a capacidade de organização poderemos pensar sequer em resolvê-los. E os livros podem dotar-nos destas capacidades.
Contudo, o desenvolvimento da informática e da tecnologia, com os seus inegáveis benefícios, tem vindo a contribuir para um fenómeno absolutamente aterrador e que tem a ver com o facto de o homem comum desprezar cada vez mais a cultura escrita. As pessoas lêem cada vez menos, o que, como é óbvio, tem consequências directas a nível da perda de certas capacidades que outrora eram fornecidas pelos livros e pela sua leitura. Fala-se cada vez pior, pensa-se cada vez menos.
Urge, por isso, estimular nos jovens o gosto pela leitura. Fazê-los perceber que ler pode não ser «uma seca». Mostrar-lhes que há algo para além das consolas e do computador. Abrir-lhes as portas a um mundo novo, a um admirável mundo novo, que, desta vez, não sendo totalmente novo, é verdadeiramente admirável.

21 de Novembro de 2008

Mudar

O blogue tem um novo look. Senti que era preciso mudar. Ao fim de um ano, não somos os mesmos. Nem eu, nem ele.

20 de Novembro de 2008

Prémio


Deixa-me Rir

Essa história não é tua...

19 de Novembro de 2008

Finding Neverland

O filme que me deixou o coração num aperto.

17 de Novembro de 2008

Aniversário



1 Ano a Improvisar

On Strike

Pois é, meus amigos. Tantos anos de vida estudantil, e só agora me é dada a ver uma greve. Uma greve, sim senhora, leram bem, uma greve com direito a portões fechados a cadeado, cartazes, megafones, palavras de ordem, e tudo e tudo e tudo. Pois é. Nem o Externato escapa a esta onda, que de alunos em fúria não há certificado de excelência que nos salve. Com pequenas diferenças em relação às outras escolas: nestas, as greves são planeadas, há pré-avisos, chama-se a polícia, tudo como manda a lei, enquanto na nossa dois ou três alunos, por assim dizer, influentes, se lembram, na véspera, de fazer uma greve. Porque as coisas têm andado muito calmas, e há que animar a malta. No dia seguinte trazem uns djambés, papel para queimar, que sempre dá uma atmosfera mais pesada à coisa, roupa confortável (andar pendurado nos muros não é pêra doce), rebuçados para a tosse (gritar a plenos pulmões durante um par de horas também não), dinheiro para comprar cartolinas para fazer cartazes, e pronto, está a greve feita, e quem não adere arrisca-se a levar com um objecto contundente na cabeça, ou, quanto mais não seja, a ouvir uma série enorme de insultos que eu prefiro não reproduzir aqui, que isto por enquanto ainda é um blogue decente.
Ao que parece, o motivo de revolta é o estatuto do aluno e o novo regime de faltas. Os meninos não gostaram da ideia e resolveram fazer uma greve assim, do pé para a mão. Eu até tinha ouvido uns zunzuns nas salas e pelos corredores, mas pensei que, como sempre, se iam acobardar todos à última hora. Por isso, qual não foi o meu espanto, quando cheguei à escola, cedíssimo, eu que por acaso só tinha aulas às 10, e dei com o edifício fechado e com o que me pareceu toda a população da Benedita e arredores ali concentrada. A minha primeira reacção foi virar-me para o lado e perguntar «Mas o que é esta merda?». Depois comecei a rir-me que nem uma maluquinha, que é o que uma pessoa séria deve fazer nestas situações. E por fim acabei por ficar por ali, a ver no que aquilo dava.
E pronto. A esta hora já se está a organizar um plano para me assassinar, que dizer mal destas manifestações é pecado. Não, meus queridos, eu não concordo com o novo estatuto do aluno. Não acho bem o novo regime de faltas. Não estou com a Milú nem com o Zézé. Não penso votar PS. Mas, por amor de Deus, aquilo que se passou na sexta passada no ECB foi realmente ridículo. Não sei o que teve mais graça, se os cartazes com frases tão eloquentes como «A Ministra quer é pila», se o ar divertidíssimo de certos professores, se compreender que 99% (e só não digo 100% porque hoje estou bem disposta) dos grevistas só ali estavam para faltar às aulas, se ao fim de duas horas ver dois marmanjos armados em artistas de novo circo, pendurados nos portões, a informar que afinal aquilo não era uma greve (pois estava tudo ilegal) e que as faltas iam ser todas injustificadas, se mal estas palavras acabaram de ser ditas, ver toda a gente, do miúdo ao graúdo, a correr para as salas de aula, ai que eu já estou tapado por faltas e a mãezinha não vai gostar.
Teve graça, teve mesmo muita graça. Eu, pelo menos, achei. E, para terminar, que este assunto já começa a aborrecer-me, deixo-vos esta pérola, ouvida durante uma aula, e que mostra bem o calibre dos meus colegas grevistas. Ou a falta dele.

Na aula de psicologia:
- Então e tu, Rafaela, vais à greve?
- Se toda a gente for…

6 de Novembro de 2008

Rainy Days

Fotografia de Daniel Garcia

5 de Novembro de 2008

Sim, sou muito complicada.

E mais simples do que isto não fica.

31 de Outubro de 2008

Eleições...


Clique na imagem para ampliar.

25 de Outubro de 2008

Porque Sim.

(Só porque gosto mesmo muito desta música.)

24 de Outubro de 2008

Olha

Passaram-se 100 posts e eu nem dei por ela.

Prémio Dardos (II)

Não, ainda não decidi a que blogues entregar este prémio.
Mas a este vai ter mesmo de ser.

23 de Outubro de 2008

Prémio Dardos

O blogue Improvisações em Dó Menor foi distinguido pelo Noturno Com Gatos com o Prémio Dardos. Desde já o meu muito obrigado à professora Soledade.




Para além de procurar promover a confraternização entre blogueiros, este prémio pretende reconhecer aqueles que, através dos seus blogues, trasmitem valores éticos, culturais, literários e afins.
Fiquei agora com o direito a exibir este selo e com o dever de entregar o Prémio Dardos a mais quinze blogues. Será uma tarefa complicada e vou precisar de algum tempo. Daqui a uns dias revelo a minha selecção.

17 de Outubro de 2008

Fall

Este caminho-
peço-o emprestado
à penumbra do Outono

Matsuo Bashô
As cigarras vão morrer - Haiku: Uma Antologia. Selecção, versões e notas de Manuel Silva-Terra. Editora Casa do Sul.